krishnamurti – Sobre o Medo (Fichamento)

Observar o Medo – trechos do livro Sobre o Medo de Jiddu Krishnamurti

O propósito desse Fichamento é trazer alguns trechos do livro Sobre o Medo de Jiddu Krishnamurti, uma coletânea de palestras, diálogos e entrevistas acerca do tema do medo. JK convida-nos a penetrarmos no problema do medo, a estabelecermos um olhar atento sobre o medo e investigarmos suas causas e efeitos, não um medo qualquer dentre as variadas formas, mas na sua estrutura fundamental. Cabe fazer algumas observações preliminares, em consideração a você leitor e especialmente se ainda não familiarizado com o autor.

  1. Em seus ensaios, palestras e diálogos, de cunho filosófico, espiritual e educativo, Krishnamurti abordou temas que envolvem a condição humana, a verdade e a liberdade, a natureza da mente, a consciência, o tempo e o pensamento, o sentido da vida, o relacionamento, o medo e as diversas formas de sofrimento humano.
  2. As críticas do autor em relação a sistemas, métodos e religiões organizadas, podem ferir a sensibilidade de mentes dogmáticas, de crentes devotos e sinceros, ou adeptos de ideologias e tradições. JK convida-nos a investigar, juntos, o medo, sua origem e gênese e, para tanto, adverte sobre a necessidade de adotarmos atenção plena e aprendermos a ouvir completamente sem julgamento, interpretação ou comparação com nosso conhecimento prévio, sem concordar ou discordar. É importante notar sua insistência em advertir-nos a não seguir ou acreditar no autor e palestrante.
  3. A fim de garantir uma leitura consciente, bem informada e livre de embaraços ou preconceitos é particularmente relevante pesquisar o contexto histórico, cultural e biográfico.

Para JK a transformação da sociedade deve necessariamente ter como ponto de partida a transformação do próprio indivíduo através do autoconhecimento e da libertação dos condicionamentos. (Cf. Bombaim, 30 de Janeiro de 1982, p. 11) Sustenta que nenhuma estrutura externa é capaz de resolver o problema do medo. Ao abordar o Problema do Medo, recomenda uma atitude de escuta atenta àquilo que nos é dito, escutar sem julgamento nem interpretação conforme aquilo que esperamos ou buscamos. JK convida-nos a abordar não a ideia que fazemos acerca do medo, uma abstração, nem tampouco uma forma específica de medo, mas sim a estrutura mesma do medo. (Cf. Bombaim, 30 de Janeiro de 1982, p. 11)

Fatores que contribuem para o estabelecimento do medo

Para JK, o medo surge, dentre outros fatores, da desatenção ao momento presente; da fragmentação, tomar em conta apenas alguma forma específica de medo dentre as inúmeras existentes; da comparação, cujo significado é um vir-a-ser, desejarmos ser ou obter algo e temer não lograrmos alcançá-lo; de desviar-nos do fato concreto, substituindo-o por abstrações, pela ideia, pelo que não é real; do Interesse em nós mesmos, as ambições, o desejo de segurança e sucesso. (Cf. Bombaim, 30 de Janeiro de 1982, p. 29)

Efeitos do medo

O medo pode ser paralisante e indutor de doenças físicas e mentais. O medo produz imobilidade, desespero e isolamento, conduzindo a ações fragmentadas geradoras de conflito e ansiedade. “É fácil ver o que o medo faz a cada um de nós. Leva a pessoa a contar mentiras, corrompe de diversas maneiras, torna a mente vazia, rasa.” (Saanen, 2 de Agosto de 1962, p. 53)

JK nos alerta sobre a importância de percebermos os efeitos reais do medo no presente, e não apenas verbalmente, intelectualmente, ou como lembrança de conhecimento acumulado que emerge da memória, influência do passado, do movimento do pensamento, que é o tempo psicológico. É necessário que a mente perceba diretamente os efeitos verdadeiros no momento presente. (Cf. De A Questão Impossível, Saanen, 3 de Agosto de 1970, p. 29-30)

E verificar que a mente atemorizada não é jamais honesta, que a mente assustada inventará qualquer experiência, qualquer coisa a que se apegar.

(Saanen, 31 de Julho de 1974, p. 138)

Medo é fuga

Medo da mudança, do novo, de romper com condicionamentos e com a forma habitual de agir e pensar; medo de nossa superficialidade; medo do vazio interior; e mais uma grande variedade de formas de medo.

Há então a contradição entre a convicção de que para aprender a mente precisa estar livre do passado e de que, ao mesmo tempo, fico com medo ao fazê-lo. Há aqui uma dualidade. Eu enxergo e tenho medo de enxergar.

(De A Questão Impossível, Saanen, 2 de Agosto de 1970, p. 41)

Para JK, se quero aprender algo novo devo ser curioso e é preciso que o conhecimento previamente acumulado, um conceito ou a memória não impeçam a minha investigação. Para aprender acerca do medo não posso desejar resistir, esquivar-me ou livrar-me dele, evitá-lo, recusá-lo, reprimi-lo, ou controlá-lo. O medo, portanto, é a própria fuga e esta só faz aumentá-lo.

A palavra aprisiona.

É preciso ir além da palavra. O medo jamais é abstrato, ele está sempre relacionado a algo. Ainda que intelectualmente possamos racionalizar o medo, isso não o elimina. A palavra não é o fato, não é a coisa. Uma explicação é sempre parcial e, portanto, jamais é a coisa mesma. A estrutura do inconsciente é verbal, e este ganha existência pela palavra. (Cf. De O Vôo da Águia, Londres, 16 de Março de 1969, p. 92)

O inconsciente é feito de lembranças, de experiências, de tradições, de propaganda, de palavras. Você tem uma experiência e reage. Essa reação é traduzida em palavras: “Eu estava feliz”, “Eu estava infeliz”, “Ele me machucou”, e essas palavras permanecem. Elas despertam e fortalecem a experiência diária.

(Roma, 7 de Abril de 1966, p. 57)

Autoproteção

A autoproteção física é algo saudável, mas, ao contrário, a autoproteção psicológica nos faz fugir, reprimir ou tentar solucionar sempre fragmentariamente. Habitualmente tentamos compreender uma forma específica de medo, mas não a estrutura mesma do medo. Sendo assim, ainda que solucionemos um determinado medo logo surge outro. Abordamos o medo baseados em conhecimento acumulado e experiência prévia, sob a influência do passado, presos à palavra, a conceitos, o que torna impossível aprender algo novo e estabelecer contato com o medo.

Nenhuma ajuda externa

Comumente esperamos encontrar ajuda externa, criando expectativa quanto a sistemas e técnicas, ou gerando dependência de outras pessoas, mentores, coaches, psicólogos, psicoterapeutas, sacerdotes, gurus.

Para aprender a respeito de mim mesmo, não posso seguir ninguém. Se eu seguir alguém, não estou aprendendo. Aprender significa que o passado não interfere, porque eu mesmo sou algo extraordinário, vital, móvel, dinâmico; então, preciso olhar para isso com total atenção, com a mente renovada. Não existe mente renovada se o passado está sempre operando.

(De A Questão Impossível, Saanen, 2 de Agosto de 1970, P. 49-50)

A estrutura do medo

O medo reside no afastamento daquilo “que é” e surge sempre que há comparação.

O medo, por certo, está no movimento de afastamento daquilo “que é”; é a fuga, a escapada, a evitação daquilo que realmente produz o medo. Ademais, quando existe qualquer tipo de comparação, o medo é alimentado - comparação entre “o que você é” e o que você acha que “deveria ser”. Assim, o medo está no movimento de afastamento do que é verdadeiro, e não no objeto do qual você se afasta.

(De Além da Violência, San Diego State College, 6 de Abril de 1970, p. 72)

Onde há prazer também há dor e medo

JK adverte que medo e prazer, ambos produzidos pelo pensamento, caminham juntos e não é possível compreender um deles sem compreender o outro. “O medo é a outra face da moeda que se chama prazer.” (De Além da Violência, San Diego State College, 6 de Abril de 1970, p. 75)

O prazer rememorado, vindo do imaginário do pensamento, impossível de ser alcançado outra vez e mais outra vez, dá lugar à dor, à ansiedade, ao medo, ao ciúme, à raiva, à brutalidade. (Cf. O Vôo da Águia, Londres, 16 de Março de 1969, p. 94)

Uma mente que tem alguma forma de medo não pode, evidentemente, ter a qualidade de amor, da simpatia, da ternura. O medo é a energia destrutiva no homem. Ele faz a mente fenecer, distorce o pensamento, leva a todo tipo de teoria de extraordinária sagacidade e sutileza, a superstições absurdas, a dogmas e crenças.

(Bombaim, 22 de Fevereiro de 1961, p. 78)

É preciso liberar-se do medo para descobrir o amor, a verdade, Deus.

A divisão entre observador e observado

Comumente ocorre apenas o reconhecimento do medo já experimentado anteriormente, mas não uma observação do medo no momento que surge. Se por um lado o reconhecimento significa recordar e nomear algo já experimentado anteriormente e trazido da memória, por outro há apenas a percepção original. “Na observação, o que existe é a pura percepção, e não a interpretação dessa percepção pelo pensamento.” (Brockwood Park, 1° de Setembro de 1979, p. 84-85)

A divisão entre o “Eu” e o Medo decorre de perceber-se como algo diferente do medo, produzindo a ilusão de que seja possível intervir sobre o medo, “agir sobre ele, de controlá-lo, expulsá-lo, racionalizá-lo, etc.“ (Brockwood Park, 1° de Setembro de 1979, p. 84). Entretanto, JK sustenta que de fato o observador é o medo, e que a compreensão do princípio de que o observador é o observado faz cessar a divisão e o conseqüente conflito.

O medo não é a ideia de medo, tampouco é algo distinto ou separado de mim mesmo ou de minha consciência. Se for capaz de encará-lo sem a divisão entre observador e observado, através de uma atenção plena, sem o interesse por mim mesmo, então estarei livre para investigar. O interesse por nós mesmos é fonte de medo.

Esse sentimento de meu, de minha preocupação, de minha felicidade, de meu sucesso, de meu fracasso, de minhas conquistas, de eu sou isso, de eu não sou isso... toda essa observação centrada em si mesmo, com todas as suas expressões de medo, agonia, depressão, dor, ansiedade, aspiração e sofrimento, tudo isso é interesse por si mesmo.

(Diálogo com Mary Zimbalist, Brockwood Park, 5 de Outubro de 1984, p. 108-109)

O movimento do tempo, movimento do pensamento

O medo é movimento do tempo e do pensamento, esse permanente vir-a-ser, no sentido psicológico de “Eu fui”; “Eu serei”; “Eu sou isso, mas virei a ser aquilo”. (Cf. Madras, 7 de Janeiro de 1979, p. 99)

O medo é, por conseguinte, um movimento do tempo e do pensamento, e o próprio conhecimento nos impede de enxergar algo novo e original. Por outro lado, se você puder olhar o medo assim que ele surge pela primeira vez, nesse caso ele é algo completamente diferente, é uma reação, uma reação física e psicológica. O medo, portanto, a raiz do medo, é o movimento do tempo e do pensamento. Mas se você compreender a natureza e a estrutura do tempo, não compreender intelectualmente, mas realmente, e também a estrutura do pensamento - o que significa investigar e ficar familiarizado com o movimento do tempo e do pensamento, que é a base do medo - então, pelo fato de você estar totalmente atento, essa mesma atenção queima o medo, eliminando-o.

(Madras, 1° de Janeiro de 1984, p. 102)

O tempo psicológico

Ao experimentarmos o fato, o que é real, segue-se o prazer que já é a recordação da percepção original e o desejo de que possa se repetir. Ao percebermos a coisa, logo o pensamento interfere transformando em abstração algo que é originalmente real. Passamos a desejar que o prazer, que é recordação, guardada na memória, possa se repetir, e desta aspiração surge o medo nas suas variadas formas conscientes e inconscientes, dentre as quais a ansiedade, angústia, esperança, desespero, como conseqüência da busca por permanência, por certezas, por respeitabilidade.

Poder e autoridade

O medo faz buscar segurança, prestígio, respeitabilidade e poder, e este último gera autoridade que tudo corrompe, e aí não há amor. O saldo do Poder é o conflito, a confusão e a dor.

Com ele vêm também a ambição e o sucesso, e uma rudeza que se tornou respeitável e, portanto, aceitável. Cada sociedade, templo e igreja dão a ele sua bênção e, dessa forma, o amor é pervertido e destruído. A inveja é adorada e a competição se torna moral.

(Do Diário de Krishnamurti, Paris, Setembro de 1961, 23 de setembro, p. 131)

Para JK, a verdadeira função da educação é auxiliar o indivíduo a compreender e libertar-se do medo e, só a partir dessa transformação pessoal, ser capaz de mudar a sociedade e criar um mundo diferente deste corrupto e competitivo em que vivemos. O professor com o intuito de controlar os alunos, comumente estimula a competição, a comparação entre eles, instaurando o medo, distorcendo-lhes as mentes e, por conseguinte, vetando-lhes a inteligência e a criatividade. (Cf. Palestra para os Estudantes da Rajghat School, 5 de Janeiro de 1954, p. 64-67)

A observação e a revelação da causa

Quando a mente percebe quais fatores são causa do medo, esta percepção faz cessar as causas. (Cf. Ojai, 8 de Maio de 1982, P. 13)

A natureza inteira, a estrutura, o caráter do medo - no observar isso bem de perto, na própria observação reside a revelação da causa; não é a análise para descobrir a causa, mas a própria observação que mostra a causa, que é o tempo e o pensamento. É simples, quando explicado dessa maneira.

(Diálogo com Mary Zimbalist, Brockwood Park, 5 de Outubro de 1984, p. 106)

JK esclarece que da observação atenta decorre a revelação e a cessação da causa, já que esta jamais é diferente do resultado (Cf. De Últimas Palestras em Saanen 1985, 14 de Julho de 1985, p. 145). Acrescenta ainda que causa e efeito sempre podem ser alterados, daí tal cessação ocorrer imediatamente, caso contrário no transcorrer do tempo outros fatores interferem e a causa persevera. (Cf. De Últimas Palestras em Saanen 1985, 14 de Julho de 1985, p. 52)

Cessar qualquer tipo de busca

A busca e as múltiplas formas de ocupação dissipam a energia necessária para que observemos o fato, apenas “o que existe”.

Buscar implica— não é verdade? - um objetivo, uma meta já conhecida ou sentida ou formulada. Se foi formulada, não passa de um resultado de cálculos do pensamento, reunindo tudo aquilo que ele conheceu ou experimentou; significa descobrir o que é buscado depois que métodos e sistemas foram para isso elaborados. Isso não é buscar, em hipótese alguma; é o desejo de atingir uma finalidade gratificadora e uma mera fuga [...] O “que existe” é sempre novo; ele nunca existiu e nunca existirá. Liberar essa energia só é possível quando cessa toda e qualquer forma de busca.

(Do Diário de Krishnamurti, Paris, Setembro de 1961, 16 de setembro, p. 122-123)

A atenção não se faz pelo esforço de concentração. Concentrar-se é restringir a atenção, estabelecer limites a um pensamento e resistir à interferência de quaisquer outros, e nisso há divisão, exclusão, ocupação e esforço.

A desatenção é concentração, que vem a ser exclusão, o cortar algo; a concentração conhece a distração e o infindável conflito do controle e da disciplina. No estado de desatenção, qualquer resposta a qualquer desafio é inadequada; essa inadequação é a experiência. A experiência favorece a insensibilidade; embota o mecanismo de pensamento; fortalece os muros da memória, e o hábito e a rotina tornam-se a norma. A experiência e a desatenção não são libertadoras. A desatenção é a lenta decadência.
Na atenção total não há experiência; não há nenhum núcleo que experimenta, nem os limites dentro dos quais cada experiência tem lugar, Atenção não é concentração, que é restritiva, limitadora. A atenção total inclui, jamais exclui. A superficialidade da atenção é a desatenção; a atenção total inclui o superficial e o oculto, o passado e sua influência no presente, movendo-se para o futuro. Toda consciência é parcial, confinada, e a atenção total inclui a consciência, com suas limitações, sendo, portanto, capaz de romper as fronteiras, os limites. Todo pensamento é condicionado, e o pensamento não é capaz de descondicionar a si próprio. O pensamento é tempo e experiência; é, na essência, o resultado da não-atenção.

(Do Diário de Krishnamurti, Paris, Setembro de 1961, 15 de setembro, p. 120)

Para JK, a meditação não envolve método ou sistema, nem esforço, nem escolha, nem separação. É estar consciente do próprio condicionamento, dos pensamentos e sentimentos; apenas observar o fato, aquilo “que é”, sem julgar, comparar, desejar mudar o que quer que seja.

A meditação rompe as fronteiras da consciência; ela põe por terra o mecanismo do pensamento e o sentimento que o pensamento provoca. A meditação presa a um método, a um sistema de recompensas e promessas, aleija e domina a energia. A meditação é a liberação de energia em abundância; o controle, a disciplina e a repressão estragam a pureza dessa energia. A meditação é a chama queimando com intensidade sem deixar cinzas. As palavras, os sentimentos e os pensamentos sempre deixam cinzas, e viver nas cinzas é o modo de ser do mundo. A meditação representa perigo, pois ela destrói tudo, não poupa absolutamente nada, nem mesmo o desejo apenas sussurrado, e nesse amplo e inescrutável vazio residem a criação e o amor.

(Do Diário de Krishnamurti, Paris, Setembro de 1961, 18 de setembro, p. 125-126)

Atenção total não é resultado de esperança ou de intenção, mas é desapego ao resultado, negar o desejo egoísta. Sem ocupar-se com resultados, livre da influência do tempo psicológico, focar no aqui e agora. (Cf. Do Diário de Krishnamurti, Paris, Setembro de 1961, 15 de setembro, p. 120-121)

Mas a atenção total não é um resultado, da mesma forma como o amor; ela não pode ser induzida, não pode ser provocada por nenhuma ação. A atenção total é a negação dos resultados da intenção, mas essa negação não é o ato de conhecer a atenção. O que é falso deve ser negado não porque você já saiba o que é verdadeiro; se você já soubesse o que é verdadeiro, o falso não existiria. O verdadeiro não é o oposto do falso; o amor não é o oposto do ódio. Porque você conhece o ódio você não conhece o amor. Negar o falso, negar as coisas da não-atenção não é o resultado da vontade de atingir a atenção total. Enxergar o falso como falso, o verdadeiro como verdadeiro e o verdadeiro no falso não é o resultado de uma comparação. Enxergar o falso como falso é atenção.

(Do Diário de Krishnamurti, Paris, Setembro de 1961, 15 de setembro, p. 121)

A ação é interrompida pela memória e os pensamentos

Com a percepção dos efeitos do medo aqui e agora há ação total, mas, de outro modo, com a percepção dos efeitos do medo a partir da recordação do passado, a partir da memória, há um isolamento que torna a ação incompleta, fragmentária, contraditória e geradora de conflito e dor. (Cf. De A Questão Impossível, Saanen, 3 de Agosto de 1970, p. 30-36)

Observem, então, verifiquem se esses medos são medos atuais ou medos projetados pelo pensamento a partir da memória. À medida que o medo aparece, verifique se você observa a partir da resposta do pensamento ou se está simplesmente observando. Estamos falando da ação, porque vida é ação. Não estamos dizendo que só uma parte da vida é ação. A vida como um todo é ação, e essa ação está rompida; quebrar a ação é o processo da memória, com seus pensamentos, com o isolamento. Isso ficou claro?

(De A Questão Impossível, Saanen, 3 de Agosto de 1970, p. 30-36)

Estar só, não é isolar-se

Segundo JK, “O desejo de poder e de sucesso não passam de uma fuga dessa solidão e das cinzas que as lembranças representam.” (Do Diário de Krishnamurti, Paris, Setembro de 1961, 23 de setembro, p. 131). Quanto ao argumento de que palavras, pensamentos e sentimentos sempre deixam cinzas, sustenta que ir além da palavra é estar só.

Livrando-nos do interesse em nós mesmos, do desejo de poder e sucesso, da tradição e condicionamentos, então livramo-nos do isolamento e da solidão, e isso é estar só. Livre de toda influência e dependência, somente uma mente completamente só, e aí há grande inteligência e sensibilidade, pode compreender a beleza.

Negar é estar só; livre de qualquer influência, tradição ou necessidade, com sua dependência e apego. Estar só é negar o condicionamento, os antecedentes. A estrutura na qual a consciência existe e onde está contida é o seu condicionamento; estar só é estar ciente desse condicionamento, sem outra opção, e a negação total do mesmo é estar só. Esse estar só não é isolamento, não é solidão, não é ocupar-se de modo egoísta. Estar só não é retirar-se da vida; ao contrário, é a libertação total do conflito e da dor, do medo e da morte. Esse estar só é a mutação da consciência; é a completa transformação do que tem existido até o momento.

(Do Diário de Krishnamurti, Paris, Setembro de 1961, 18 de setembro, p. 126)

Conclusão

Se o pensamento impede a observação totalmente atenta, então não posso pensar em cessar o pensamento. Na observação totalmente atenta, não há um “Eu” pensando “desejo observar”, “necessito observar” ou “estou observando”; não há separação entre observador e observado; pois “o que existe” não tem passado nem futuro.

Compreendemos que há o espaço-tempo, o tempo cronológico, tempo físico, mas também o tempo psicológico, interior, movimento do pensamento. JK expõe de forma simples como se dá o pensamento, “origem do pensamento, como ele surge - experiência, conhecimento, que é sempre limitado, memória e, em seguida, o pensamento. Eu estou apenas resumindo.” (De Últimas Palestras em Saanen 1985, 14 de Julho de 1985, p. 148-149)

A ambição de intervir de algum modo no pensamento é movimento do pensamento e do tempo, e implica um “Eu” separado daquilo que desejo transformar, um “Eu” que deseja intervir. Assim, a tentativa de tranquilizar a mente ou cessar o pensamento envolve a passagem de um estado a outro distinto, distração, ocupação e esforço. Entretanto, a percepção será ação apenas a partir da clara compreensão de que a causa do medo é o pensamento, ou seja, o tempo. (Cf. De Últimas Palestras em Saanen 1985, 14 de Julho de 1985, p. 149-150). Quando a mente percebe quais fatores são causa do medo, esta percepção faz cessar as causas. (Cf. Ojai, 8 de Maio de 1982, P. 13)

Não pareceu excessivo o número de citações e trechos do livro apresentados neste post, mas sim necessário e suficiente para convidar à escuta ativa, à investigação e à descoberta que cada um deve realizar por si mesmo. A leitura do livro remete ainda a noções como liberdade, inteligência e criatividade, que serão exploradas em outros fichamentos ou posts. Também investigaremos mais profundamente as ideias de relacionamento, tempo, experiência, conhecimento, memória, consciência e pensamento.

Aqui uma boa dica é visitar os sites das Fundações Krishnamurti dedicadas a preservar e difundir os ensinamentos de Jiddu Krishnamurti e permitir o acesso a um enorme material muito bem organizado, palestras, discussões, uma coleção de textos, livros, artigos, áudio e vídeo gratuitos, redes sociais e podcasts.

  • Krishnamurti Foundation Trust UK (KFT)
  • Krishnamurti Foundation of America (KFA)
  • Krishnamurti Foundation of India (KFI)
  • Fundación krishnamurti Latinoamericana (FKL)

Assista também aos seguintes vídeos:

  • Becoming is time | Krishnamurti, “Extract from the second public talk in Calcutta, 1982.”
  • Fear can be put away completely | J. Krishnamurti, “Extract from the sixth conversation with Allan W. Anderson in San Diego, 1974.”
  • Fear comes into being when I think of tomorrow | J. Krishnamurti, “Extract from the third public talk in Ojai, 1977.”
  • Is there fear without the word 'fear'? | Krishnamurti, “Extract from the second talk at Saanen, 1976.”
  • J. Krishnamurti - Amsterdam 1981 - O pensamento e o tempo são a raiz do medo, primeira palestra pública Amsterdam, Holanda 19 de setembro de 1981.
  • No fear / J. Krishnamurti, “Extract from Public Talk 1, Brockwood Park, UK, 1976.”
  • Observing the root of fear / J. Krishnamurti, “Extract from the fourth public talk in Saanen, 1978.”
  • On fears and escapes | J. Krishnamurti, “Ojai 1983 - Question #4 from Question & Answer Meeting #2”
  • Self-interest is the cause of fear / J. Krishnamurti, “Extract from the second conversation with Mary Zimbalist at Brockwood Park, 1984.”
  • The Ending of Fear | Krishnamurti, “Excerpt from the fourth public talk Saanen, 1984.”
  • What is the cause of fear? | Krishnamurti, “Extract from the first public talk at Brockwood Park, 1978.”
  • Wiping fear away | Krishnamurti, “Extract from the third public talk in Saanen, 1977.”
  • Your life is guided by fear and pleasure | Krishnamurti, “Extract from the second public talk in Ojai, 1972.”

Se este fichamento parece útil, considere compartilhar deixando um comentário no post de introdução . Siga conosco e muito obrigado.

Para aprofundamento nos temas e autores abordados no Site, consulte a página com Referências e Materiais Recomendados com livros, artigos e vídeos selecionados.

Você também pode acessar diretamente Referências: Jiddu Krishnamurti.

Referência Bibliográfica

KRISHNAMURTI, Jiddu. Sobre o medo – on fear. Tradução de Pedro Da S. Dantas Jr. São Paulo: Cultrix, 1998, 160 p.

Bibliografia

FUNDACIÓN KRISHNAMURTI LATINOAMERICANA, Fundação Latino-americana Krishnamurti. Disponível em: <http://www.fkla.org/>. Acesso em: 05/12/2023.

KRISHNAMURTI FOUNDATION TRUST, Fundação Krishinamurti. Disponível em: <https://kfoundation.org/l/pt/>. Acesso em: 05/12/2023.

KRISHNAMURTI FOUNDATION OF AMERICA, Fundação Krishnamurti da América. Disponível em: <http:/www.kfa.org/>. Acesso em: 05/12/2023.

KRISHNAMURTI FOUNDATION OF INDIA, Fundação Krishnamurti da Índia. Disponível em: <http://www.kfionline.org/>. Acesso em: 05/12/2023.

KRISHNAMURTI, Jiddu. Becoming is time | Krishnamurti. YouTube, 29 de jul. de 2023. Disponível em: <https://youtu.be/K7QgJlPJcfs>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. Fear can be put away completely | J. Krishnamurti. YouTube, 30 de abr. de 2022. Disponível em: <https://youtu.be/0qLBqcu0KxI>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. Fear comes into being when I think of tomorrow | J. Krishnamurti. YouTube, 12 de mar. de 2022. Disponível em: <https://youtu.be/xZdgDUJ1xpA>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. Is there fear without the word 'fear'? | Krishnamurti. YouTube, 8 de out. de 2020. Disponível em: <https://youtu.be/eR4SeryeZcY>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. J. Krishnamurti - Amsterdam 1981 - O pensamento e o tempo são a raiz do medo. YouTube, 7 de jan. de 2014. Disponível em: <https://youtu.be/-Z6IYtIEV9w>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. No fear / J. Krishnamurti. YouTube, 8 de fev. de 2020. Disponível em: <https://youtu.be/UaMv53rL-vk>. Acesso em: 05/12/2023.

___________. Observing the root of fear / J. Krishnamurti. YouTube, 3 de out. de 2020. Disponível em: <https://youtu.be/_OSu1Em814U?list=RDCMUC88A5W9XyWx7WSwthd5ykhw>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. On fears and escapes | J. Krishnamurti. YouTube, 14 de abr. de 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=bpwPAKstpy4. Acesso em: 05/12/2023.

____________. Self-interest is the cause of fear / J. Krishnamurti. YouTube, 7 de dez. de 2023. Disponível em: <https://youtu.be/pdYg1wZr_sg>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. The Ending of Fear | Krishnamurti. YouTube, 8 de out. de 2020. Disponível em: <https://youtu.be/BFWBaBdH2qw>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. What is the cause of fear? | Krishnamurti. YouTube, 24 de jul. de 2021, Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=UZA3rwrTvdE>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. Wiping fear away | Krishnamurti. YouTube, 13 de jun. de 2022, Disponível em: <https://youtu.be/ZLQt_ttmpsk>. Acesso em: 05/12/2023.

____________. Your life is guided by fear and pleasure | Krishnamurti. YouTube, 19 de nov. de 2022, Disponível em: <https://youtu.be/ftLPOuMU5Zs>. Acesso em: 05/12/2023.

José Jorge Baêta Cerineu

Jorge é especialista em Gerenciamento de Projetos, com certificação Professional Scrum Master I (PSM I) pela Scrum.org e MBA Executivo em Gerenciamento de Projetos pela FGV/UCI. É graduado em Filosofia (Bacharelado e Licenciatura) e em Processamento de Dados, com especialização em Computação Gráfica e Multimídia e em Educação a Distância. No SemSetores, dedica-se à produção de conteúdos sobre bem-estar, saúde mental, práticas ágeis, educação e impacto da deep tech (tecnologia profunda), seguindo um Protocolo de Experimentação e Produção intelectual que integra o eixo de investigação sobre agência artificial.

Nota de Transparência: Este texto foi elaborado pelo autor com suporte de IA para revisão linguística e organização em formato de post para otimização de leitura e SEO. A curadoria de ideias, análise crítica e validação das fontes permanecem restritas ao autor.

Produzido antes da adoção formal do Protocolo de Experimentação e Produção Intelectual, este conteúdo integra um eixo de investigação sobre agência artificial. O texto foi revisado conforme a versão 1.0 do Protocolo (fev. 2026), embora sem seguir integralmente o seu fluxo de trabalho. [Saiba mais aqui].